terça-feira, 13 de outubro de 2009

O Rebento da Serpente





Data da experiência: 17.09.09
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Pseudônimo de uma pessoa real.

Fernando
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Devia estar trabalhando naquela realidade quando saí numa diligência pra ver um achado. Alguns colegas pensavam que provavelmente era uma cova onde estavam desovando corpos. Entretanto, ao chegar próximo da área, o meu pessoal tomou outro caminho para atender uma emergência no centro da cidade, deixando-me pra ir sozinho ver a tal cena do crime.

Lembro de já estar próximo a uma universidade e pela massa de curiosos indo para o local, pude guiar-me sem perda de tempo. Mas no caminho encontrei Fernando, um ex-namorado de uma amiga, e naquele momento resolvi passar por ele sem dar trela (não que tivesse alguma coisa contra ele), no entanto, percebi algo incomum, ele parecia estar abalado com alguma coisa, sendo que ficava olhando o horizonte cujo sol já sumia.

-        Ei rapaz! Lembra de mim? Trabalhei contigo no (…) faz um tempo, você não é o amigo do “fulano”? - Eu disse.
-        Sim. - Ele respondeu
-        Mas tu estás bem? O que fazes aqui?- Perguntei.
-        Ele está chegando! E eu estou procurando o que eu perdi. - Ele disse aparentando estar em delírio.

Como não tinha intimidade pra conversar mais um pouco, resolvi tomar o meu caminho, pois, tinha obrigações a cumprir, daí ele me parou segurando o meu braço.

-        Sabia que ele veio cobrar os pactos? O meu preço  foi o meu filho! Eu fiz sem saber e pagarei se não me redimir... O sangue dele e da mãe estão em mim. - Ele falou com uma expressão amarga.
-        Quer ajuda? Estou fazendo um serviço por essas bandas, deixa só resolver algumas coisas, logo vou te acompanhar e você poderá contar-me melhor essa história.- Eu disse.
-        Não, obrigado! Estou indo pra igreja. - Ele objetou.
-        Igreja? - Perguntei surpreso.
-        Sim, preciso de paz para o meu espírito. Uma parte de mim morreu, e a mãe dele não sabe da gravidade dessa perda. - Ele respondeu colocando a mão no peito.

Então, ele tomou um rumo contrário ao do meu e foi cambaleando com os olhos vidrados para a dita igreja. Embora já conhecesse um pouco de sua vida pessoal através de sua ex, não consegui concatenar na hora  as suas palavras.
 
E num clarão repentino apareci na cena do suposto crime. Fui aproximando-me e cortando aquela multidão até chegar numa cova grande, acho que devia ter uns dez metros quadrados, e como um círculo antigo perfeito, inúmeras ossadas estavam dispostas ao redor aparentando ter acontecido alguma espécie de liturgia oculta. E no seu centro, havia um animal reptiliano mumificado na posição fetal, de mais ou menos um metro e meio de altura.

O povo começou a comemorar, pois, clamavam que o achado daria bem-aventuranças numa espécie de concepção folclórica local (não sei o porquê, mas lembrei do bezerro de ouro bíblico). E imediatamente começaram a gritar e o tumulto se iniciou, não tive outra opção a não ser atirar para o ar e acabar com aquela balburdia. Chamei o pessoal pelo celular e os colegas falaram que aquela coisa estranha era um filhote da Serpente do Ar, e era pra guardá-lo rapidamente usando um pano, pois aquilo poderia trazer sabedoria ou loucura, dependendo das pessoas que o tocassem com as mãos nuas.

Após os ânimos se acalmarem, ouvi explosões nos céus e sons de jatos. As pessoas que estavam ali comigo apontavam para o horizonte avisando que ele estava chegando. Eu vi a sua forma na frente do sol que se punha, a Serpente do Ar era na verdade um dragão escuro alado de três cabeças e com uma grande cauda. Não sei o que aconteceu comigo, acho que agir por instinto, pensei que se ele achasse aquela múmia poderia destruir aquela parte da cidade, então peguei a coisa e joguei no carro mais próximo, e veio o clarão novamente.

Quando voltei a enxergar, já me encontrava numa praça dentro de um bairro conhecido, eu vi um incêndio de grande proporção na área onde estava. Saraivadas de tiros começaram a ser feitas e o caos havia se instalado. Dirigindo o carro ao redor da praça eu vi o Fernando novamente sentado em um dos seus bancos, ele estava de cabeça baixa, parecia estar meditando ou algo assim, cheguei a chamá-lo duas vezes, até que ele apontou para um hospital, por intuição percebi que era um lugar apropriado pra guarda a múmia que estava comigo (nem sei de onde surgiu isso), e não pensei duas vezes.

Entrando no hospital com aquela coisa nas costas, reparei que estranhamente não tinha ninguém, e o silêncio tomou aquele ambiente, tudo indicava que estava entrando num lapso temporal, aquele lugar era uma maternidade, mas os berços estavam cobertos de sangue. Comecei a sentir ojeriza/náusea com aquilo, não suportava imaginar o que poderia ter acontecido ali. Então, eu vi Fernando na frente de uma dessas salas.

-        Foi aqui. O assassinato aconteceu aqui e eu permiti isso. - Ele disse.

Eu vi uma cadeira ginecológica e alguns baldes, não consegui entrar, visto que o meu coração ficou pesado com aquela cena grotesca. Quando voltei a mim, ele havia sumido, então comecei a ouvir um choro de bebê em uma daquelas salas medonhas. Um sobrevivente? Pensei comigo. Fui andando e as paredes foram envelhecendo, parecia sair do lapso temporal, até que me deparei num quarto e mais uma vez Fernando apareceu, ao lado de uma cama, ele estava segurando algo e o choro que eu ouvia vinha dos braços dele.

Com cautela fui aproximando-me, e o clarão veio... Memórias da realidade física apareceram, lembrei dele e da  sua ex, senti um pesar, algo abominável foi feito.

-        Se até a Besta preza pelo seu filho. Por que nós não protegemos os nossos?- Ele disse.

Quando voltei, eu vi um bebê forte e robusto, um lindo garoto que foi se deformando na minha frente, até virar um cadáver mumificado. Havia sangue na roupa do Fernando, então ele disse:

-        Você sabia que a culpa de sangue existe? E ninguém faz ideia do que ela seja. Pactos firmados, úteros inflamados, dimensões sendo abertas e as Bestas aterrorizando as nossas almas. Fuja disso, fuja dos templos de sacrifício, dos templos amaldiçoados que plantam sementes doentes e trazem o desgosto para as almas dos incautos.

Depois dessas palavras ele chorou amargamente, tentei puxá-lo daquele transe, mas ele não saía do lugar, a construção começou a cair e eu o vi sumindo entre os destroços. A cabeça do dragão apareceu pelas janelas, ele esperava pelo seu rebento. Não tive escolha, saí do hospital com certo receio e deixei o cadáver na sua frente, ele (o dragão) emanava autoridade e poder, uma das cabeças encostou o nariz de maneira maternal no corpo ressuscitando-o, e depois falou:

          Uma vida por outra vida, assim nós despertamos!

...

Epílogo: Foi tão estranho a forma que esse pesadelo veio. Lembro de ter tido escrito um com a mesma temática (aborto) no começo ano, mas nesse caso, ainda procuro concatenar seus símbolos e nuances, por mais estranhos que possam parecer. E as diferenças são tão claras entre um pesadelo e outro: o aborto em razão de uma violência (e depois o suicídio) e o outro com uma anuência (e depois o remorso), e todos, deixando marcas, tanto em homens como em mulheres. O lado masculino se personificou em uma  pessoa fora do meu vínculo social, e não sei se isso vem a ser um aviso ou uma repugnância inconsciente. 13.10.09


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Imagem: Dragon, de Jessica Entis

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