Ao longe enxergava a mansão aparecendo, a praia estava com um tempo nublado e o caminho que descia até àquela estranha casa não era difícil. A relva que se estendia por aquele campo era alta, e alguma coisa se movimentava furtivamente através dela, que pela silhueta, pude observar um aspecto felino em sua forma de andar... Quase se rastejando.
Apressei os meus passos quando senti que aquilo me perseguia. Não demorou muito para chegar ao local, que pela arquitetura branca, notei ser de um estilo vitoriano, e na sua varanda, encontrei algumas senhoras aparentemente mudas, pois, apenas gesticulavam e apontavam pro animal que me perseguia.
Olhei pra trás e no topo da colina que desci, ele estava lá, era um leão sentado que aparentava apenas vigiar o ambiente, e quando olhei novamente para as anciãs, já não se encontravam na varanda. A porta da casa estava aberta e eu tomei a liberdade de entrar pela minha segurança.
Resolvi procurar alguma arma de fogo ou branca, sempre atento pras janelas. Até que me deparei com uma menina que estava na sala, logo após a entrada. Não me lembro de tê-la visto ou se caso apareceu ali de repente, ela estava com olhinhos cansados creio que de tanto chorar, era impúbere, provavelmente tinha entre sete a nove anos de idade, caucasiana, aparentando ser do leste europeu.
- Quem deixou você aqui meu anjo? Onde estão os seus pais? Você mora aqui? Qual seu nome? - Perguntei em tempos diferentes.
Mas ela não respondia, olhava sempre pra porta e ficava muda. Não sei se ela tinha autismo ou se estava com muito medo que algo viesse pegá-la. Ela segurou a minha mão e passou a ir pra aonde eu ia, sempre calada e atenta pra porta. Em seguida, ouvi um rugido muito forte, e ela abraçou a minha cintura chorando, parecia ter urinado ali mesmo.
Realmente algo nela me incomodava, não era o medo, mas, uma característica comum em vítimas de violência sexual. E pra desfazer esse incômodo da consciência olhei disfarçadamente os seus braços esguios e o pescoço pra ver se tinha alguma marca de agressão, mas, nada havia. Depois fiz novamente algumas perguntas e nada dela responder.
Retomei a minha busca e procurei por todos os recantos do casarão e não achei nenhuma arma, e quando voltei pra sala, havia um homem que apareceu, assim como a menina, do nada e estranhamente não emanava perigo; era alto, tanto que seus ombros estavam acima da minha cabeça (tenho 1.80) e quando ele falou, tive que levantar o rosto para olhá-lo nos olhos.
- Cuide dela! Agora você é o responsável. Aprenda a fechar as portas e janelas até para aqueles que você não tem vínculo. - Ele disse.
Como se não bastasse fui rapidamente incumbido de uma missão por um estranho, sem entender o porquê de toda essa situação.
- E aquele leão lá fora, como faço pra matá-lo? - Perguntei.
- Você não pode matá-lo, tudo que é criado não pode ser destruído por outro ser criado, só pelo criador. - Ele respondeu.
Não entendi em qual sentido ele falou. Como não podia matá-lo? Era apenas um animal! Notei também que a garotinha não ficou incomodada com aquele indivíduo.
- Ele não quer você, o que ele quer, é ela! - Ele disse.
Tentei confabular mais um pouco, mas ele desapareceu quando desviei o olhar em razão da menina ter puxado o meu braço insistindo em apontar pra janela. Fui ver o que era e descobri que o animal ficava rodeando a casa. Então, depressa anoitecia como uma sombra que encobria o sol, passei a ouvir ecos vindos da praia sendo trazidos por um mar fabulosamente tão límpido, luzes brilhavam em suas águas e os sons que vinham pareciam canções lamuriosas.
A menina largou a minha mão e começou a ir direto pra porta numa tentativa de sair da casa, agora era eu que segurava o seu bracinho. Tentei repreendê-la olhando o seu rosto, mas, não achei traço emocional algum, parecia morta, mais branca e hipnotizada. Perguntei várias vezes a razão daquele ato e nada de responder mais uma vez.
No pesadelo o tempo foi passando rápido e comecei a criar uma afeição por ela, não queria sair dali por prezar pela sua segurança. Embora não falasse e tivesse um semblante vazio, senti no coração algo paternal, algo que afirmava ser o meu dever estar ali. O estranho de tudo, é que um daqueles olhinhos azuis foi tornando-se castanho que nem os meus e parte dos seus cabelos foi escurecendo. Poucas vezes ela ria, parecia estar voltando a ser o que era. E sem uma cronologia temporal certa as senhoras que me receberam apareceram novamente, lá fora, e as infelizes abriram a porta quando os ecos chorosos ressoaram.
Não sei onde estava naquele momento, a garota tinha sumido, não me recordo de como ela largou a minha mão, mas lembro do barulho do trinco da porta, aquelas velhas abriram mesmo depois de eu trancá-la. Criei uma raiva contra aquelas desgraçadas, não pensei em mais nada, saí correndo pra fora da casa. As areias corriam rápidas em meus pés, até que eu a vi subindo a colina.
Gritei, mas os ecos se transformaram em clamores e abafaram a minha voz, fui subindo a colina o mais rápido que pude quando o animal apareceu. Na verdade ele já estava lá, eu é que não tinha visto, e a menina parou na frente dele que já sentado esperava a presa. E pra minha surpresa a fera falou.
- Agora ela é minha! - Disse rugindo.
Foi quando uma opressão me interrompeu fazendo-me cair de joelhos. Eu vi duas formas de realidade ali na minha frente. Uma, aparecia a besta devorando-a e arrancando as suas entranhas, e a outra, ele entrava nela, não como um espírito, mas como uma simbiose parasitaria física. Vi as duas imagens passarem na minha frente em lapsos. E a minha raiva foi crescendo até que não aguentei mais, no desespero corri pra tentar impedir desvencilhando-me daquela opressão, senti no coração que era o meu dever dar a vida por ela. E quando eu cheguei perto, as duas realidades se mesclaram, e ela estava caída e nua, contudo, o seu corpo já era de uma adolescente.
Eu vi marcas que não eram de mordidas, o que eu vi, eram marcas de molestamento. Os inchaços, os sinais de mãos, flagelos ocasionados por cordas ou coisas semelhantes; vários rostos passavam por dentro do seu corpo e sua parte íntima sangrava como uma hemorragia. Ela se ajoelhou e passou a mão no ventre e pela primeira vez falou:
- Minha semente, minha odiada semente, minha maldita semente, vou abortar você...
Ela deu um grito, debatendo-se como se quisesse tirar aquelas marcas, arranhava-se e soluçava, colocava a mão em sua parte íntimas como se tentasse arrancar alguma coisa. E falava consigo mesma:
- Eu me odeio, estou suja, imunda, tenho nojo de mim...
Ela gritava e ao olhar pra mim estendeu uma mão ensanguentada.
Meu coração se encheu de ira, queria matar os animais que fizeram isso com ela. Em seguida ela ficou possessa e a entidade passou a falar através dela. Ele gritava afirmando que ela era dele e um rosto de demônio cornudo apareceu no ventre dela. Então, o mesmo homem que antes apareceu na casa tocou no meu ombro pelas costas e disse:
- Ajude-me não deixe que eles façam isso novamente. - Ela disse.
Meu coração se encheu de ira, queria matar os animais que fizeram isso com ela. Em seguida ela ficou possessa e a entidade passou a falar através dela. Ele gritava afirmando que ela era dele e um rosto de demônio cornudo apareceu no ventre dela. Então, o mesmo homem que antes apareceu na casa tocou no meu ombro pelas costas e disse:
- Ela é mais uma vítima da perversão dos homens! Ao Mar do Aborto essa criança foi trazida, para vitimar outra criança em seu ventre, é o ciclo da maldade. Essas águas tem-se tornado mais vermelhas a cada dia, e os ecos que você ouve são as sementes que foram amaldiçoadas e levadas pelas águas do mundo, do seu mundo. Elas são os mártires da vida que clamam e enchem a taça do furor divino. O nome da besta que está nela é Therion, guardião de Moloque, o rei do aborto.
Eu olhei em direção da casa querendo contemplar a imensidão do mar transparente, e fiquei estarrecido com o que vi, donde estava, em cima da colina. As luzes no mar eram fetos, milhões de fetos, que boiavam feitos algas marinhas.
Quando retornei a atenção para a garota, a mesma já não estava lá. A saída foi seguir o rastro de sangue, não ligando mais pra presença daquele homem estranho. Quando vi que ela tinha descido a colina e caminhava em direção das águas... Gritei para que ela não fizesse isso, mas foi tarde. Eu a perdi de vista e quando cheguei ao local a cor transparente das águas foi tornando-se escarlate. Fiquei prostrado.
Passei um tempo vendo aquele mar vermelho, sentia-me culpado por tê-la deixado ir, quando me recompus a primeira coisa que fiz foi tacar fogo naquela casa. Procurei as velhas, mas não as achei, queria vingar-me e descobrir quem fez o mal àquela menina, todavia, não tive resultado. Fiquei pensando o que leva um animal humano destruir um espírito inocente, e porquê aquele corpo e alma foram sacrificados para um deus falso, e em seu ventre, que deveria gerar a bênção ela chamava de maldição.
Os ecos começaram a vir... Estavam tão chorosos, lembravam tristes corais sendo cantados por crianças numa espécie de réquiem. E quando acordei, o meu coração continuou pesaroso durante o dia.
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Imagem: Lion, de (?)
Os ecos começaram a vir... Estavam tão chorosos, lembravam tristes corais sendo cantados por crianças numa espécie de réquiem. E quando acordei, o meu coração continuou pesaroso durante o dia.
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Espaço
- Estranhamente só havia móveis na sala e não no restante da casa.
Imagem: Lion, de (?)

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