Data da experiência: 21.08.09
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Pseudônimo de uma pessoal real.
Marina
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Aquele torpor de morte... Aproximava-se como uma suave brisa de paz que carinhosamente abraçava a alma e escurecia a minha mente. Eu via tantas ruas ali, todas seguiam uma mesma direção, no entanto, estendiam-se em curvas e mais curvas, subindo e sumindo no infinito em direção ao sol.
Como ele era belo! Eu conseguia vê-lo sem ferir os olhos. Mas, algo forte me compelia a continuar andar... Mas para onde? Não via nenhum sinal ou indicação, só via pessoas sem rostos e inúmeros portais abertos com suas respectivas ruas.
No cansaço e a na solidão... A memória trouxe tantas imagens do meu passado, descobri que mesmo conhecendo tantas pessoas a caminhada sempre foi solitária. E o mais estranho, é o entrelaçamento dessas imagens com aquele momento onírico. Eu vejo amigos, vejo parentes, vejo paixões e todos, não me acompanham, apenas, aconselham-me qual é a melhor trilha a seguir-se.
Já não aguentava mais ficar parado, era preciso caminhar, precisava seguir... A vida sempre aparentou ser tão complexa, não ela em si, mas as pessoas nela e até mesmo eu; e agora nostalgicamente vi como ela foi tão simples. Sempre consegui tornar-me mais forte através da dor, mas agora, estava sentindo uma dor diferente, que traz arrependimento, paz, é como uma purificação que expurga algumas imagens ruins da alma.
Eu só queria descansar. Estava ouvindo sorrisos de crianças, olhei para a direção de onde vinham e observei que desde pequenas já eram acompanhadas por anjos e adultos, para certas ruas de inúmeros portais. Mas pra onde? Qual rumo deveria seguir? Minhas pernas estavam tão pesadas, aquela cegueira estranha passou a embaçar também as minhas memórias. Senti que o silêncio veio, senti que as vozes infantis se calaram, fechei os olhos, então, ouvi aquela voz:
- Segure a minha mão, pois quero te mostrar uma coisa. - Ela disse.
Abri os meus olhos num espanto, pois sabia que aquela voz era familiar.
- Marina?! - Perguntei surpreso.
- Não! (risos) Não sou ela, mas, represento aquilo que você viu de belo nela, e aquilo que você busca em cada mulher.
Abrindo um sorriso doce e com uma resposta tão direta e íntima, de cara vi que era um arquétipo tomando a forma dela. Aqueles cabelos encaracolados e aqueles olhos na cor de pérolas negras, confesso que não pensei em muita coisa. Apenas fiquei a admirar aquela beleza e nem notei que a deixei no vácuo. A psicologia explica que os homens ficam meio (ou muito) idiotas/bobos/desconcentrados quando se deparam com uma mulher bonita; cientificamente provado e confirmado por mim de uma maneira bem empírica, ainda bem que isso só aconteceu naquele plano, até agora.
- O que foi? Viu um fantasma? (risos) Olha só, venha comigo, quero te mostrar uma coisa.
Ela segurou a minha mão e me puxou daquele torpor estranho e do entrave psicológico (!?). Andamos e chegamos à frente de uma grande rua e adentramos sem muita explicação num dos portais, lembro de estarmos de forma tão rápida passando por ruas, avenidas e cruzamentos, sempre subindo, até que ela parou. E já com um rosto sério, virou-se e segurou as minhas duas mãos, abrindo-as de forma que ficassem de palma pra cima.
- O tempo tem passado tão rápido. Olhando você aqui, as marcas do tempo já estão aparecendo em seu rosto. Mas com isso, em seus olhos, eu vejo uma nova etapa da sua vida abrir-se com conquistas, estabilidade, superando assim tantos problemas materiais e do fundo da alma... No entanto, infelizmente, com todo esse progresso pessoal, o seu coração está ficando tão duro. - Ela disse com expressão de tristeza.
Olhei espantado, acho que fiz uma cara de pergunta. Então, em minhas mãos, formou-se uma esfera que era tão maleável e que logo foi endurecendo.
- Isso é uma parte da alma e do espírito que pulsa... É o seu coração. Breve, você vai começar a ver a maldade humana quase rotineiramente, e com isso, nascerá a raiva, o pessimismo e acima de tudo, a indiferença. E os reflexos começam a surgir através dos pesadelos que já te assolam.- Afirmou.
- O que você quer que eu faça? Por enquanto, esse é o meu ganha pão. Espero logo sair disso, óbvio. Mas, ainda não posso fazer nada. - Respondi.
- Nada em seu contexto é um conceito vazio e redundante que você transforma em inatividade. – Ela retorquiu.
- Pronto, virou a Sra. Sophia, não a de Gaarder. - Brinquei
- Não seu palhaço! Você é que entendeu tudo errado, não parte do seu trabalho, mas sim, de você mesmo! – Respondeu apreensiva.
Aqueles belos olhos foram ficando cada vez mais sérios, notei que aquilo era algo muito grave. Ela pegou e segurou aquela esfera em seus braços.
- Lembra o que você viu nestes olhos que tanto te fazem bobo agora? - Ela perguntou com um leve sorriso como se testasse a minha reação.
- Tenho algumas memórias. – Respondi com linguagem corporal nula.
- Não aludindo aos desencontros, mas, ao que você realmente viu e o que você disse pra Marina. – Retomando a pergunta.
- Sim, pode parecer meio romanesco, mas eu disse que vi a sua alma, a beleza na que está na sua al... Dela, na alma dela, pra ser mais correto – Respondi, estranhando o diálogo.
- Isso! Sabia que este sentimento sincero é o que está perdendo-se em você. O de ver a verdadeira beleza em alguém?
- Poxa, que desastre utópico! - Ironizei.
- É disso que tô falando, há um tempo você levava muito a sério essa sua pseudo-utopia, que por sinal, era baseada em quê mesmo? Princípios, valores, que você mesmo viu realizar-se na vida de conhecidos, e com isso, tomou pra si. – Respondeu.
- Já sei, não precisa explicar. Mas, você sendo um arquétipo, veio aqui só pra falar isso? Coisas tão pequenas e o porquê de usar a imagem dela? – Perguntei.
- Não, essas coisas pequenas são pilares, com base até teológica, daquilo que você está esquecendo. Agora, o porquê de usar a imagem dela, é porque eu fui, ela foi, a primeira. - Eu fiz uma cara. - Olha a mente suja! Eu, aqui, posso tomar muitas formas, mas todas vão terminar naquilo que você busca em alguém, como já disse. Nela, você viu as virtudes e o potencial de tornar-se uma mulher segundo os olhos da Providência Divina, foi o primeiro a ver isso, o coração. Ela era uma menina quando a conheceste, e você já sabia o que ela iria tornar-se, na mulher que ela é hoje. É certo que muita coisa aconteceu, e você sabe o porquê daquilo acontecer, pois, mesmo se você conseguisse o que querias você não estaria pronto. Já que havia batalhas a se vencer e tu levaste metade da mocidade pra combater, não era a hora, você sabia que poderias perdê-la de vez em sentido de amizade? Mas agora, com o progresso que está tendo e com a maldade que irá ver, poderá perder o seu foco, tornando-se igual aos homens vazios deste século. Você até agora não se maculou por acreditar em princípios, mas isso, será posto à prova em breve.
- Deixa-me ver se entendi, tudo começa com uma perda, ou melhor, progressão de perda... não é?
- Sim. – Ela respondeu.
- Mas, essa perda, que acredito ser a indiferença, você esquece que é uma coisa normal que vem com a idade, tornamo-nos fortes, não se abalando mais com os mesmos problemas e circunstâncias. - Eu disse.
- Eu sei, mas o que falas se chama experiência, e a indiferença, é o oposto do amor. E o que quero que você atente é o endurecimento do coração. Homens com tais corações passam a viver como animais: comem, bebem, satisfazem as suas necessidades vis, e não respeitam mais os seus corpos e os corpos com quem se envolvem. Você sabe disso! Pois já viu o vazio e as feridas nas mulheres que passam por cada balada, festa e show underground... O que sobra depois? Quando novas não veem, mas com a idade a realidade se revela. Aquelas suas colegas que se entopem de drogas por qual razão? Você conheceu recentemente uma que sorria com feridas no coração. Todas vivem buscando algo sentimental, uma razão existencial, mesmo no sexo descomprometido, por causa do vazio e carência do coração. E quando encontram homens com corações assim, tornam-se iguais a eles. As pessoas hoje vão perdendo a sua identidade, esquecem delas mesmas e se tornam corpos vazios que se unem em noites de fornicação e laços sem amor. E o fruto de tudo? É o que você irá ver todo dia no trabalho. Uma geração podre, destruída e doente.
Vieram memórias, muitas memórias, lembrei de uma amiga especial.
- Essa é mais uma... Achaste nela o que tanto procuravas, achou uma qualidade diferente, mas ela estava tão ferida, por dentro e por fora. Gostou de você pelo que era, mas o seu coração estava tão duro, razão de dogmas machistas e não pela falta de amor. Que não permitiram ficar com ela. - Ela disse.
Resolvi não responder e só ouvi.
- Depois que o homem perdeu a perfeição edênica, o seu senso eterno, da alma e do espírito... Busca o perfeito em pessoas imperfeitas. Cada qualidade vem junto com uma inequalidade, e com isso, vemos aquilo que achamos ser perfeito em tantas pessoas diferentes, mas com elas, sempre vêm problemas e os vícios. Por isso, quando achamos alguém, dever-se-ia nascer o verdadeiro amor munido com corações compungidos, para que essas barreiras sejam superadas e tal união seja perfeita aos olhos de tantas mazelas da condição humana.
Logo ela veio e colocou a esfera nas minhas mãos e sorriu. Acho que pra quebrar o gelo. Ela olhou o sol e ficou de costa, quando vi a sua tatuagem.
- Por que você não voa? - Perguntei.
- Dei-me asas então. - Respondeu
- Marina, você é uma menina radical, sempre quis voar não é? – Perguntei brincando.
- Não sei, desencana e pergunta à verdadeira! (risos) - Ela disse.
- Deixe-me tocar na sua tattoo, vou tentar criar essas suas asas. Qual é a palavra mágica aqui? – Perguntei.
- Mágica? (risos) Fé... Seria o certo. – Ela falou
- Então vamos lá.
Eu imaginei asas e as asas aos poucos nasceram. Nossa, tornou-se uma figura alada parecia um anjo em pessoa.
- Agora sim... Olha só, não tô bonita? Pronta pra voar! (risos) Daqui a pouco você vai despertar. Não se esqueça das minhas palavras.
- Sim senhora, dona Sophia. Mas, ainda vou ver você? - Brinquei
- Ver quem? A Marina ou a mim? A Marina tá lá realizando sonhos e prosas... E eu, sempre vou tá aqui, em outras formas né e caso não tenha percebido, sou parte de você, qualquer coisa eu puxo a sua orelha. – Falou brincando.
- Meu lado feminino? Ui... Tá bom então e cuidado com os urubus! – Brincando também.
- Leso, sou sua consciência, arquétipo e sei lá o quê... E não sua viadagem!!! E pode deixar, não se preocupe que se eu achar um urubu jogo na tua cabeça.
Simplesmente dei uma risada, nunca imaginei a verdadeira falando isso. E então, ela subiu... Com uma alegria tão espontânea e com aquele sorriso. O bom é que guardo boas lembranças de Marina e o arquétipo veio refletir isso pra mim, como um símbolo que devo continuar a buscar em alguém. O sol brilhava, continuei andando sozinho, mas como gostaria de voar, entretanto, cada passo tem que ser dado para um bom aprendizado.
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Imagem: Sarah (Mia Kirshner), de The Crow: City of Angels
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Imagem: Sarah (Mia Kirshner), de The Crow: City of Angels

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